quarta-feira, 24 de outubro de 2012

CÈ SABE ONDE EU NASCI...FEDORENTO?


             Boa música. Chopp gelado. Pinguinha suave. Excelente começo de noite.

            Daqui a um pouco chega meu amigo Américo. “Grande José Américo”; saúdo-o. José Américo, Américo, ou a dada hora, apenas Zé, é meu amigo do  colegial. Foi com ele que dei as primeiras baforadas num Hollywood (um vinte – “Sabe o que é isso?” Bom, o Ministério da Saúde adverte que devo parar esse papo por aqui).

            Américo, sempre tão espirituoso, estava caladão. Cara fechada, mas respondeu ao meu aceno e chamado e veio sentar comigo. Sem qualquer cumprimento chamou o Arlindo, nosso prestativo garçom, e pediu (sem perguntar do que se tratava) para trazer uma bebida igual a minha.

            Apesar do meu espírito etílico nacional, e do respeito às espécimes mineiras, num arroubo de nordestinidade deliciava-me com uma Mangueira (novamente em atenção ao Ministério da Saúde e frisando que eu e o Zé Américo andávamos de táxi, deixo de prestar maiores informações sobre essa fina flor do Castelo do Piauí). Arlindo trouxe a Mangueira e mal a serviu e o Zé a entornou.

            Enquanto lhe serviam outra perguntei ao amigo: “O que está havendo? Algum problema no hospital (Américo é Proctologista – se o amigo precisar, recomendo)? Brigou com a Maria José...?”

            Depois de sorver o néctar e de um longo silêncio, abriu a boca.

            “Hoje a tarde sai mais cedo do hospital e fui comprar o presente de aniversário da minha filha, com a Mazé. Ela está completando 15 anos e fomos encomendar umas rosas, uma grande cesta de café da manhã (a minha sogra é boa de boca e esta lá em casa) e comprar-lhe um netbook (assim acabam as brigas dela com o irmão)”. Tentei perguntar pelo Júnior (filho mais novo do Américo, e meu afilhado), mas ele não queria ser interrompido.

            “Quando vinha voltando pra casa, em plena Antônio Sales, sinalizei pedindo para mudar de faixa – o outro carro vinha longe – e depois de ter feito a conversão ouvi uma buzina,” Pensei com meus botões: “Tem gente que quer chegar na frente até um fila de enterro”. E o José Américo continuou: “Logo, logo, o carro que eu ultrapassara emparelhou com o meu e o motorista, baixando vidro do veículo começou a vociferar: – VOCÊ É LOUCO? “Quando tentei perguntar o motivo daquela pergunta/acusação ele disse que eu ultrapassara de forma irregular”. “Mas Carlos, eu sinalizei, Ele é que devia estar conversando com a mulher dele e não prestou atenção a minha seta pedindo passagem”,

            “Acontece”, tentei dizer. “Acontece é uma piromba”, continuou o Zé. “Olha, o sujeito continuou me seguindo e achando pouco – antes de me chamar para brigar (pra desespero da Mazé que quase teve um treco) – saiu brandindo com essas pérolas: “SÓ PODIA SER COISA DE CEARENSE. VOCÊS ERAM PRÁ ANDAR DE CARROÇA. EU SOU PAULISTA. POVO FEDORENTO”. E se mandou.

            Fez-se o silêncio. Sem saber o que dizer perguntei pela Mazé. Ela ficara em casa uma bruta enxaqueca.

            Tentei argumentar que o etnocentrismo não existe só aqui no Brasil e que maus motoristas por vezes acumulam este vício com a má educação. Embora quisesse alisar o pé do ouvido do biltre com um apagador, não podia botar mais lenha na fogueira.

            Nisso escuto: “Soy loco por ti América...”, no que pensei ser o Arlindo me homenageando com o Caetano. Não, era a Mazé ligando para o telefone do Américo.