Para muitos, “no princípio era o Verbo”, para outros tantos o Big Bang, entretanto – independente de credo ou posição acadêmica –, a história da humanidade é o resultado das histórias sociais e pessoais dos seres humanos.
A riqueza da história do conhecimento humano está na sua complexidade. Assim sendo, o ideal de uniformização ou hierarquização do conhecimento, tentado desde Antiguidade Clássica é missão possível, visto que compromete a sentido da humanidade – que é plural e por vezes caótico.
Embora tenham nascido antes de qualquer outra forma de conhecimento elaborado, as chamadas Ciências Humanas sofreram uma enorme pressão para justificarem o conhecimento por elas produzido após o crescimento dos avanços tecnológicos e da apropriação pelo homem de diversos percursos da natureza. Com certeza, isso impulsionou Auguste Comte a inicialmente denominar a Sociologia de Física Social. De certa forma, na tentativa de equiparar-se a outros saberes acadêmicos, as Ciências Humanas foram utilizando cada vez mais instrumentos quantitativos para validar os seus resultado – agindo de maneira cartesiana, como expressa Capra – e, por vezes, descumprindo o seu papel de apropriação da subjetividade humana.
As vezes me pergunto: – E se Wright Mills não fosse sociólogo como teria chamado o seu A imaginação sociológica? Na verdade, pouco importa, pois como ensina Florestan Fernandes: a explicação sociológica antecede à Sociologia. Em outras palavras (ou, se preferirem, lato sensu): as humanidades contam a história da humanidade.
Assim como Paulo Freire, que conta ter aprendido a “ler” vendo o labor das formigas no quintal do seu avô, o nosso ofício (de artistas, bibliotecários, filósofos, historiadores, juristas, lingüistas etc.) contribui para a interpretação do cotidiano, na reinvenção do presente, na projeção do que poderá vir a ser o futuro e muito mais do que o meramente dizível.
Em tempos velozmente tecnológicos. Com “gerações” cada vez mais curtas. De grandes desafios éticos. É estranho que se possa pensar a ausência de lugar para as Humanidades. Nosso contributo enquanto especialistas pode – inclusive – exceder as nossas expertises, auxiliando na discussão de temas, aparentemente específicos de outras áreas. Isso se faz necessário para que não se perca – na ciência e na cotidianeidade em geral – a necessária isenção e objetividade.
Imaginem a segurança pública, a medicina, a arquitetura e a economia sem a presença do olhar humanístico. Faltou este olhar quando governos cearenses quiseram transplantar o modelo novaiorquino de segurança pública (leia-se tolerância zero). Sem este olhar a clonagem e a globalização poderiam ser implantadas como técnicas eficientes, mas desprovidas de análises ética e psicosociais. Isso, porque a sociedade não é um grande Acquário humano.
Há quem diga que os humanistas falam mais do o homem da cobra – expressão que só adquire sentido dentro do que podemos chamar de cearensidade. Ora, a palavra é a matéria prima por excelência dos nossos ofícios e, sendo a linguagem a primeira forma de socialização, falar e escrever bem compõem o ethos de quem se dedica a interpretar a cena humana fazendo uso do seu próprio capital simbólico para conferir autoridade ao seu argumento.