quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A bala abalada

Recentemente a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do Ceará tomou a iniciativa de proibir a exposição sensacionalista de suspeitos da prática de crime.
Logo vieram alguns a dizer que o Estado estava cerceando a liberdade de imprensa. Outros, afirmaram que se estava a defender direitos de seres humanos não-direitos. Houve até que dissesse: “Nós não mostramos o preso contra a vontade dele”. Talvez porque o preso quisesse gozar dos seus “quinze minutos de fama”.
É estranho que se defenda – em tempos de alta tecnologia – uma espécie de linchamento midiático como direito da sociedade. Ora, o direito da sociedade é exercido quando erigimos nossos ordenamentos jurídicos e ali dizemos o que é lícito e ilícito. Temos o direito de julgar nossos semelhantes que transgrediram nossas normas de conduta e aplicar-lhes a sanção cabível a cada caso (com base na dozemetria da pena – ou seja, a pena deve ser proporcional à gravidade do crime praticado).
É importante que tenhamos em mente que a condição de preso não se confunde com a de perda da humanidade. Assim, é de se entender que a prisão não implica em comida escassa ou de qualidade duvidosa, em amontoamento de pessoas em celas insalubres – como se fossem sacos de gente –, cerceamento de convivência social, tortura (física e/ou psicologia) etc.
Com as mídias contemporâneas é possível reproduzir o “circo” romano com maior requinte e abrangência. Assim, os programas ditos policiais criaram uma espécie de BBB (Big brother Brasil), onde os acusados – geralmente pobres, pretos e ignorantes – são mostrados a tele-espectadores ávidos de “emoções”.
É absolutamente urgente que a sociedade se conscientize de que o lugar ocupado por um “delinqüente” hoje pode ser ocupado no futuro por nós (ou por quem nos é querido: amigos, filhos, irmãos etc.). Por isso essa luta por dignidade intitula-se em defesa dos Direitos Humanos, pois é isto que nos aproxima: a condição de humanidade.
O discurso equivocado dos que integram a “bancada da bala” –aqueles que fazem da desgraça humana seu ganha-pão, e ainda usam das tribunas parlamentares para justificarem suas ações de desrespeito ao sentido da humanidade – não merece apoio, pois inconstitucional, politicamente equivocado e em descompasso com todos os tratados e convenções internacionais de que o Brasil é signatário.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Política versus realidade

No início de 2009 vi publicada uma matéria que fazia alusão acerca da difícil volta à realidade para os vereadores que não haviam sido reeleitos. Quis escrever sobre o assunto, mas, o tempo – o eterno vilão – não me permitia fazê-lo.
Tempo é questão de opção – dizia um livrinho do meu tempo de católico praticante. Sem entrar no mérito das minhas mudanças espirituais, tenho a dizer que não parei de pensar naquela frase – era como se fosse devedor de uma manifestação a respeito daquilo.
Premido pela faxineira – que teima em tentar por no lixo aquele recorte amarelado – e pelos acontecimentos políticos recentes (castelos, atos secretos, acquários, PAC e os primeiros arranca-rabo para as eleições de 2010), capitulei.
Neste momento – diante da nova máquina, que insiste em expor o meu analfabetismo tecnológico –, me dou conta de outro problema: o assunto é amplo demais para comportar no espaço de um artigo de jornal. Pensei em abordar o tema num artigo acadêmico; publicá-lo no meu blog (afinal, apesar da minha relação limitada com a informática, não dou o braço torcer e vou remando neste mar virtual); dividir a exposição em vários pequenos artigos. Resolvi fazer tudo isso (tenho dificuldade em fazer opções drásticas, mas isso é tema para outro artigo).
Discordei do título encontrado pelo jornalista (a tal da volta à realidade), mas em parte ele estava certo. Ao que parece, a política constitui-se numa “realidade” à parte. O detalhe é que não se está falando em 3D, realidade virtual ou ficção científica; simplesmente, para muitos políticos, a chamada realidade é que se constitui numa ficção: nós é que estamos errados com o nosso mundinho limitado.
Creio que esses políticos pensam assim: se ao poeta tudo é lícito, por que nos impor limites. Claro que eles estão certos, nós é que somos “manés” (malandro é malandro). Como já dizia Chico Buarque (numa leve transgressão deste escriba ao texto original, mas sem acrescentar nenhuma palavra): agora já é não é normal... malandro com mandato federal... que nunca se dá mal.
Semana passada, em Brasília, ouvi de um motorista o seguinte relato indignado: – Frequentemente, ouço pessoas dizendo que Brasília é um antro de ladrões. Esse povo esquece-se de duas coisas: Brasília não se resume aos cerca de oitocentos parlamentares que atuam aqui; e que a maioria desses político vem dos seus estados e são eleitos por eles”. Adorei a aula do cidadão.
Parece que a “realidade” dos políticos é diferente da vivida pelos demais mortais porque nos esquecemos que o nosso voto é o seu passaporte para essa “ilha da fantasia”.

domingo, 12 de julho de 2009

Por amor ao humano

Há umas boas décadas venho identificando-me com a defesa do que se usou chamar de Direitos Humanos. No início nossas ações eram basicamente de enfrentamento do Estado, truculento e cerceador das liberdades políticas e de organização social. Das cartas de protesto enviadas às autoridades repressoras nos anos 1980 ao modelo de comunicação virtual da ONG DHNet e ao status de ministério de uma Secretaria Especial de Direitos Humanos muita coisa mudou no País. Mas, às vezes me pego a pensar: – Por que precisamos fazer isso? Parece tão óbvio que o homem deve respeitar a vida e deixá-la fluir garbosa e viçosa que às vezes me enerva a alma ter que brigar para manter ativo esse fluxo.

Ao contrário do que possa parecer ao observador desatento não amo essa luta sem quartel e sem fim, prefiro ocupar o meu tempo de não trabalho com o ócio. Sim o ócio. Como ensina Rubem Alves, é bem melhor levar os olhos para passear – nada de caminhadas com cara de malhação –, passeios, estímulos à mente e ao espírito do que ocupá-los com a pesquisa de filigranas jurídicas que possam impedir uma injustiça social de ser perpetrada. Tenho a convicção que passar momentos com a família e os amigos para falar das belezas da natureza e da imaginação humana são bem mais interessantes do que ter que se envolver na luta por Direitos Humanos. Boa parte dos militantes de Direitos Humanos que conheço também gostaria de dedicar mais tempo ao não-fazer-nada, este óleo do espírito, mas isso não se fará possível enquanto houver homens marginalizados por outros homens em relação ao acesso à dignidade, alimentação, moradia, educação, saúde, trabalho e lazer.

Espero que chegue o dia em que precisemos explicar – como muita dificuldade – aos mais jovens o que era a luta por Direitos Humanos; um tempo de intransigência que virou memória. Enquanto isso não se torna realidade teremos que dividir o tempo e as nossas energias entre o olhar perdido sobre o mar, o encanto do por do sol atrás das serras, o saborear de uma boa cachaça (para quem gosta), o prazer da leitura, o espreguiçar num fim de tarde e lutar por justiça e paz. Grande ironia, não é?

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Quase poema

É muito engraçado o quanto a vida dá piruetas durante a nossa tão breve existência.
Às vezes acho que estou ficando maduro (é assim que chamamos o estado em que começamos a reconhecer na vida algo além do nosso umbigo?!?).
Às vezes, simplesmente, velho.

Vejo o tempo, hoje, com olhos que não tinha ontem e me encanto com mudanças, transformações, outras formas... ações. Coisas que nem me passava pela mente até ontem, hoje parece-me inacreditável que nunca tenha visto isto – qualquer que seja – por tal ângulo.

Hoje, resolvi brincar com as palavras e agora me vejo rodopiando alegremente em meio a temas que em outra circunstância me apavorariam,
É bom – muito bom – poder gozar de tempo. Não gozar dele... como que caçoando, tal qual fazemos ao reler um nosso antigo poema ou carta de amor perdido nas gavetas do tempo, Não, gozar de usufruir,

Frequentemente me enrosquei ou enganchei com o tempo.
Agora, tal qual Inácio de Loyola – recluso à cama por um mal de fundo agudo – leio, não a Bíblia (pois de santo ainda estou longe), mas cartas não lidas ou escritos – meus e de outrem – com a paciência de quem tem tempo à ganhar.

Sorvo sentimentos na forma de palavras – nem sempre as palavras são capazes de exprimir sentimentos.
Um tal diz-me que se vai,,, cansou de esperar por uma resposta que não ficou de vir.
Bem acertado foi Romano ao dizer que há os que esperam os que se fazem esperar.
O estranho, é que nem sempre quem se faz esperar quer isto, para si ou para o “outro”.
E, fazer do outro um legitimo outro – já disse Maturana – é algo como fazê-lo respeitado (assim como julgamos que devamos ser respeitados).

Aqui li que alguém dizia continuar disponível para oferecer seus serviços (estranho, pois não os tenho demandado, senão em pensamento). Ali um outro, ou quase outro, fala-me do incomodo que é viver. Mas, informa-me que não irá desistir (de viver; bem entendido). Acolá há quem me apresente escritos meus de outro tempo; talvez para testar-me – tal qual um ex-presidente e ex-sociólogo que disse: Esqueçam o que eu escrevi. É reconfortante sentir que não abandonei vários dos meus escritos. Deve ser sombrio sentir-se abandonado pela paternidade de falas e escritos, apenas por poder dizer novas palavras.
As palavras têm um tempo e vários sentidos. Umas poucas podem se dar ao luxo de serem eternas, mas, nenhuma, deve sofre o abandono ou o desterro de quem as amou,
Nem sempre habitamos o universo dos nossos sonhos. A vantagem disso, é que assim ainda faz sentido sonhar.

terça-feira, 7 de julho de 2009

QUEM DERA SER UM PEIXE...

Em recente visita ao Campus do Itaperi da Universidade Estadual do Ceará, o Governador Cid Gomes foi abordado por um conjunto expressivo de estudantes da instituição que o pressionou para ter um encontro com seu governante. Cid assumiu a postura de um estadista e recebeu ao movimento estudantil da UECE e representantes do segmento docente da Universidade para um debate no auditório central daquele campus.
Dentre asa demandas apresentadas pelos estudantes estava a imperiosa necessidade de contínua ampliação e atualização do acervo da Biblioteca Central da UECE; isso deve ter impactado ao Governador, posto que é ciente de que já não se faz ciência e tecnologia sem alguns requisitos mínimos (gabinetes para professores/pesquisadores, laboratórios bem equipados, bibliotecas de qualidade e acesso irrestrito a instrumentos de comunicação – inclusive os virtuais).
Tenho acompanhado a discussão acerca da construção do que vem sendo chamado de Acquário do Ceará. Dizem as notícias e artigos publicados na mídia que este empreendimento dotará o estado do maior oceanário da América Latina. Dentre outras informações diz-se que o empreendimento está orçado em R$ 250.000.000,00. Além disso, fala-se do incremento da indústria do turismo, na revitalização da Praia de Iracema, da ocupação de uma área ora inutilizada, na geração de emprego e renda.
Há algumas perguntas que ainda não foram verbalizadas sobre esse assunto, tais como: 1. Por que tem que ser “o maior”?; 2. Por que o poder público precisa investir na construção desse equipamento se ele caracteriza-se (pelo menos até o momento) como uma atração que beneficiará a iniciativa privada?; 3. O que falta à Praia de Iracema é um oceanário?; 4. Por que não construir tal equipamento na Av. Leste-Oeste?; 5. Em que esse investimento contribuirá para a educação, a ciência e a tecnologia?; 6. Qual a posição das universidades instaladas em Fortaleza sobre o assunto?
Aracaju inaugurou há uns dois anos um oceanário belíssimo. O equipamento foi construído e é administrado pela Petrobras, estando localizado numa área de expansão da cidade. Creio que – voltando ao Acquário do Ceará – cabe ao poder público criar vias de acesso e demais meios infra-estruturais que possibilitem a instalação de equipamentos que favoreçam a socialidade; não realizar o papel da iniciativa privada. Considero que a Praia de Iracema carece de investimentos relacionados à segurança pública (iluminação, pavimentação, policiamento etc.) e incentivo fiscais e de crédito aos pequenos empreendedores (os grandes já têm fontes suficientes e generosas) para voltar a sua pujança das décadas passadas. A Av. Leste-Oeste foi um cartão postal nos anos 1970, mas há muito encontra-se em abandono (sem infra-estrutura, investimento em requalificação urbana e na auto-estima de seus habitantes) – a oportunidade de instalar ali o Pavilhão de Feiras sequer foi devidamente avaliada; senão com a recente proposição de desapropriação de um hotel para dar lugar a este equipamento. Mais uma vez a educação é considerada como supérflua diante dos investimentos públicos, sequer se tendo atraído a academia para tal discussão.
Vimos que a cifra de R$ 250.000.000,00 não parece preocupar a classe política deste estado ao ser pensada a criação do Acquário do Ceará. Enquanto isso, com apenas R$ 1.000.000,00 pode ser construído um núcleo básico de pesquisa em humanidades (com 10 laboratórios e atendendo a 4 programas de mestrado, 4 cursos de especialização e dezenas de pesquisadores). Com menos do que isso (algo em torno de R$ 850.000,00) pode ser construído o Serviço de Psicologia Aplicada (SPA) necessário ao funcionamento do Curso de Psicologia da UECE (que dentre os 40 alunos que ingressaram em 2008, 29 já apresentaram trabalhos em eventos acadêmicos; que está prestes a criar um espaço terapêutico piloto para atender a grupos de estudantes oriundos das escolas públicas do entorno do Campus Fátima (situado no bairro do mesmo nome em Fortaleza); que se constitui na única opção de ensino público de Psicologia em relação à UFC – no nosso Estado.
A academia não é um grande viveiro de gente e as Humanidades não podem entrar pela porta dos fundos dos debates públicos; sob pena de irmos todos para o Acquario.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

DESCARTE OU MORRA

Num mundo cada vez mais movido por referências de consumo e valores ditados pelo mercado é fácil ser descartado. Ficar obsoleto é cada dia mais comum e não precisa fazer esforço, basta deixar o tempo correr. Na sociedade do imediatismo difícil é envelhecer, criar raízes, dar bons frutos, coisas consideradas do passado (das antigas ou, das antas – como dizem as amigas adolescentes da minha filha mais nova).
Como desenvolver projetos de longo prazo quando o amanhã é hoje? A durabilidade dos produtos deixou de ser característica desejável ou, no mínimo, esperada pelo consumidor. O pior disso, é ver o quanto as pessoas estão se acostumando ao padrão do descartável.
Impressoras, aparelhos celulares, assistência médica (leia-se planos de saúde), serviços de atendimento ao consumidor (estes, feitos para consumir paciência) são alguns dos produtos e serviços que parecem ter se especializado em ter vida curta ou nem sempre não funcionarem quando mais se precisa deles.
Boa parte dos Estados contemporâneos está às voltas com o combate à pirataria. O que não parecem é estar preocupados com a baixa durabilidade de vários dos produtos “autênticos”, nacionais ou importados. A onda nos R$ 1,99 (na verdade 1 dólar) dos anos 1990 (produtos aparentemente baratos devido a sua baixa qualidade e reduzido custo de mão de obra) parece ter se estendido por boa parte da economia.
Por outro lado, sem sombra de dúvida é muito prático usar barbeador e isqueiros descartáveis, fralda descartável (e a sua pavorosa versão geriátrica), absorventes etc. Mas fica a questão (excluídos os absorventes – nada de “paninhos”): por quê precisamos dessa praticidade em qualquer situação? Em certas ocasiões a praticidade é sumamente funcional e até necessária, mas será que as crianças só devem usar fraldas descartáveis? Por que substituir barbeadores e isqueiros convencionais por descartáveis quando não se está em viagem, fora de casa, ou simplesmente porque acabou o gás (ou fluído) ou perdeu-se uma das partes do aparelho de barbear mecânico? Mesmo as mentes mais ecoxiitas costumam não encontrar respostas para isso.
Usamos produtos descartáveis ou aceitamos a baixa qualidade ou durabilidade de outros porque fomos convencidos de que está é a melhor opção de vida. Um estilo de vida a ser copiado mundo a fora. Algo como: “é assim mesmo”. Paradoxalmente, ainda usamos velhos chavões (pois já não representam necessariamente valores) de que “é preciso investir em ética e produzir bens e serviços com esmero”. Não há conciliação entre fazer as coisas aligeiradas ou com respostas pré-estabelecidas (experimente perguntar algo fora do receituário numa amena conversa em um call center e verá o resultado) e produzir resultados eficazes, duradouros, ecologicamente respeitáveis. É como se, de repente, o famoso jeitinho brasileiro [ou se preferirem a Lei do Gérson (“Gosto de levar vantagem em tudo. Certo?!) tivesse virado mania mundial (e sem nos pagar royalty).
Certo dia um pedinte, diante de uma farmácia, pediu a um amigo que lhe comprasse um pacote de fraldas descartáveis para a filha. Meu amigo esbravejou que isso era um absurdo, pois quando era criança – e pobre – havia usado (ele e toda a parentela) fraldas de algodão. E disse mais: “– Se ao menos fosse leite ou remédio, mas fralda descartável. É um abuso”.
Com frequência escuto críticas ao hábito de alguns políticos de não agirem com ética, honestidade e respeito à Nação. Há os que esbravejam que “político é tudo igual” ou que a CPI do momento vai “acabar em pizza”.
Vejo com indignação a atitude excludente do meu amigo em relação ao mendigo e do povo em relação aos políticos. Será coerente estimularmos o nascimento dos “sem-fralda descartável”? E os políticos, numa sociedade que convive tão bem com produtos de baixa durabilidade e/ou descartáveis, também não estão no “seu direito”? Como somos incoerentes.

domingo, 5 de julho de 2009

Tempo vale...

Uma das máximas capitalistas mais difundida é aquela que afirma: tempo é dinheiro. Traduzida para os mais variados idiomas a frase tem funcionado como um verdadeiro impulsionador da produção, da economia de movimentos (vide taylorismo) e da falta de outro sentido para vida além de correr atrás do dinheiro.

Quem nunca ouviu o repetiu – quase como um mantra – o tal do time is money? Parece até a frase se aplica a tudo, e não apenas à economia. Assim, as mais diversas ações humanas – dentro e fora do mundo do trabalho – parecem ser orientadas pela busca de resultados satisfatórios no menor espaço de tempo.

O interessante dessa “contabilização” financista do tempo é a sua aplicação quase que exclusivamente em favor daqueles que controlam o tempo alheio. Quando ouvimos uma empregada doméstica dizer aos “patrões”: – Vocês podem dormir menos para que eu possa arrumar o quarto mais cedo? Coisa assim, geralmente, é interpretada como insolência.

Por outro lado, virou lugar comum reclamar-se da morosidade do Judiciário (ou das obras da prefeitura), o que é sempre alvo de justificativas que não convencem aos cidadãos. Chego quase a pensar que a única maneira de impulsionar os serviços judiciários é dizer ao povo: – Deixem clamar por Justiça com seus problemas insignificantes. E olha que muitas demandas sequer chegam ao Judiciário.

De modo geral (embora sempre seja perigoso generalizar), o que se nota em nossa “aldeia global” pós-pós é que certos prestadores de serviços decidiram não se importar com o tempo dos seus clientes. Isso vale, principalmente, para operadoras de telefonia, planos de saúde e administradoras de cartões de crédito. A nova invenção dos call centers é uma frase, no mínimo, exótica: ­– Um momento mais longo, por favor. Ora, se o “um momento, por favor” já durava uma eternidade, imagino as teias de aranha crescendo nas nossas orelhas.

Um dia desses, parado num semáforo (coisa para mortais – o que significa dizer que não vale para as viaturas policiais; em qualquer circunstância) deparei-me com a seguinte publicidade de certo plano de saúde num out bus: “Em caso de suspeita de dengue não vá para os hospitais. Telefone para o seu médico”. Seria hilariante, caso não fosse desonesto para com a nossa inteligência. Quantos dos médicos você conhece estão 24h a sua disposição para consultá-lo por telefone (ai que saudade dos bips)? Quantas vezes você consegue marcar um atendimento médico no mesmo dia?

Às vezes digo às atendentes em consultórios médicos (ao confirmar digitalmente a consulta ou exame, após horas de espera): ­– Se a maioria dos médicos tivessem que viver um dia (apenas um) como advogados, talvez passassem a respeitar prazos. É claro que a minha indignação não implicará num pedido de desculpas pelo atraso no atendimento ou sequer explicação que indique respeito para com o cliente.

Vivemos a tirania do: o seu tempo não vale nada. Algo como: espere ou espere. Mas isso pode servir-nos de motivação autocrítica: – Como estamos tratando o tempo para os outros (sim, porque o tempo não é de ninguém, é simplesmente apropriado por nós no dia-a-dia) nas minhas relações cotidianas? Isso vale para tudo (chegar na hora marcada em qualquer compromisso; não “alugar” o ouvido de alguém com algo que só interessa ao falante; entregar na data marcada algum serviço etc.). Depois de responder a isso, como no jogo de amarelinha, veja onde você ficou.